A morte tem destas coisas
Quando estamos esquecidos
distantes
traz-nos de volta à vida
O silêncio que se instala
de quem foi
de quem partiu
a dor de quem fica presente no ar
O fecho abrupto do caixão
a sinalizar o fim
o acabar de uma história
Mais de 40 anos de viuvez
4 filhas criadas sozinha
com a sua tenacidade e engenho
Tornou-se contrabandista
nesta terra esquecida
colada a Espanha
40 anos a sós
e nunca tirou a aliança
nunca mais abandonou o negro
Há amores assim
nem o tempo, nem a ausência
os apagam
Antigamente era para sempre
e o sempre existia até à morte
O cortejo sai para o cemitério
Aqui nesta terra onde o sol queima mais
e o silêncio faz-se ouvir
O cortejo faz-se a pé
caminhando ao lado da urna
Começa a chover
como se até o céu
se quisesse despedir de quem tanto deu
quem tanto fez
e partiu em paz
com a vida que amava
com o destino que tantas vezes desafiou
fugindo por estes montes e riachos
escondendo-se da polícia
para criar uma família
a sua família
Impressiona a história
pela história
antigamente era-se assim inteiro
agora somos pedaços
retalhos da sociedade
segmentos de mercado
O som dos passos na terra
anuncia que chegou a hora
as últimas despedidas
os gritos que cortam a manhã
Nunca se está verdadeiramente preparado
para se dizer adeus
para deixar ir
Por muito que saibamos que vai ser assim
Por muito que nos mentalizemos
Por muito que tenhamos dito e feito
Não é suficiente
Nunca é
Fica sempre qualquer coisa
por dizer, por fazer
Mesmo quando a vida é longa
Da terra viemos
à terra voltamos
Do nada para o nada
E nos entretantos
é o que deixamos que nos segura aqui
são as memórias
que nos mantêm vivas
mesmo quando morremos
O som da terra a bater no caixão
Impossível não sentirmos
o quanto somos pequenos
o quanto somos efémeros
Quem parte faz-nos sempre falta
Mesmo que em vida não o parecesse
Porque quem parte leva um pedaço de nós
a nossa história
a história de quem nos criou
de quem nos fez gente
de quem nos ensinou a sonhar...
sábado, março 20, 2010
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