sábado, março 20, 2010

As boas e as más memórias

Porque guardamos só as boas memórias
Porque são os nossos álbuns
uma amostra do que nos aconteceu de bom?
Só fotografamos o que é bom
o que nos faz feliz
Como se fossem esses e apenas esses
os instantes que interessam guardar
Mas e os outros
aqueles que nos fazem sofrer
aqueles que se gravam na pele
e nos fazem crescer
não são parte de nós?
não são nossos?
Porquê esconder?
Porquê fingir que nunca existiram
Porquê mostrar famílias felizes
amigos em festas
e férias na praia
e não mostrar
a doença e a dor
a raiva e a solidão
as lágrimas quando caem
Se são esses instantes que também contam a nossa história
então que a história seja inteira
completa
e não meia história
Para que um dia quando a contemos mostremos
o bom e o mau
o que nos fez sorrir
e o que nos fez crescer
Para que aqueles que deixamos
saibam que fomos inteiros
completos
humanos
Por isso, comecei a fotografar tudo
Para que se um dia tiver
que contar a minha história
seja real, verdadeira e inteira
E para quando me julgarem
que me julguem
pelo que fui enquanto pessoa
nos bons e nos maus momentos
Porque aprendemos mais quando caímos
Porque crescemos mais
quando choramos do que quando sorrimos
e porque fotografias com sorrisos
tenho muitas
e quando as vejo sei que
as boas memórias que espelham
não são assim tão boas
porque só se vê o lado do sol
e esconde-se o lado da sombra
mas nós somos feitos
de sol e de sombra
de verso e reverso
de boas e más memórias
e todas as memórias merecem o seu espaço
Porque sejamos honestos
as más nunca esquecemos
ficam gravadas na alma, na pele
Podemos fingir que não existiram
mas não as esquecemos

Quem fala demais

Não gosto de pessoas
que falam muito
Quem fala muito é por norma
uma pessoa vazia
pois nada retém
Não sabe que um silêncio
vale mais que mil palavras
Por isso "os amigos"
que me falam muito
não me dizem nada
Porque não acredito
porque a realidade
do dia a dia
mostra o quanto mentem
o quanto falam por falar
Por isso prezo tanto as minhas amizades
mais antigas
Aquele amigo que longe
lê nas entrelinhas
e sabe o que dizer e quando
Aquela amiga que sabe
que quando nada me diz
é quando me apoia mais
e sinto o seu carinho e amor
Porque esses sabem do que são feitas as amizades
Porque não tomam partidos
Porque são verdadeiros
e porque essencialmente estão sempre lá
Passam os anos
Passam "os amigos" e os amores
Continuamos lá uns pelos outros
e não há maior riqueza que essa
sem a petulância de sermos os melhores amigos
uns dos outros
Sem a arrogância que sabemos mais
do que se diz ou se sente
Estamos lá e isso basta
principalmente quando nesta época de horas escassas
os outros
os que falam demais
e prometem muito
desaparecem
como as sombras quando cai a noite
e sentimo-nos magoados e enganados
Porque achamos que não o merecíamos
nada fizemos para isso
mas é sempre que a corda se parte
que se separa o trigo do joio
e ficam apenas aqueles
que sempre lá estiveram
e temos que aprender a lição
Para os novos que chegam agora
é mais difícil
Porque já não acreditamos tanto
Mesmo que falem pouco e a sério
estamos sempre à espera
de os ver desaparecer na multidão
Dedicamos a nossa vida a uma pessoa
achamos que será suficiente
nunca é
as pessoas nunca se satisfazem com o que têm
E depois é tarde demais
Eu não preciso que me digam que gostam de mim
que são muito meus amigos
eu não preciso que me digam que são os meus melhores amigos
eu só preciso que estejam lá
não só nas festas e nos jantares
mas também quando a cortina cai sobre o palco
e as luzes se apagam
quando é tempo de arrumar a casa
de chorar
de gritar
de limpar
e aí nós sabemos
quem está mesmo sem se deixar ver
e os que aparecem muito
mas valem apenas os segundos que dura o tirar uma foto
Por algum motivo,
poucas ou nenhumas fotos tenho
com quem sempre esteve lá

A morte

A morte tem destas coisas
Quando estamos esquecidos
distantes
traz-nos de volta à vida
O silêncio que se instala
de quem foi
de quem partiu
a dor de quem fica presente no ar
O fecho abrupto do caixão
a sinalizar o fim
o acabar de uma história
Mais de 40 anos de viuvez
4 filhas criadas sozinha
com a sua tenacidade e engenho
Tornou-se contrabandista
nesta terra esquecida
colada a Espanha
40 anos a sós
e nunca tirou a aliança
nunca mais abandonou o negro
Há amores assim
nem o tempo, nem a ausência
os apagam
Antigamente era para sempre
e o sempre existia até à morte
O cortejo sai para o cemitério
Aqui nesta terra onde o sol queima mais
e o silêncio faz-se ouvir
O cortejo faz-se a pé
caminhando ao lado da urna
Começa a chover
como se até o céu
se quisesse despedir de quem tanto deu
quem tanto fez
e partiu em paz
com a vida que amava
com o destino que tantas vezes desafiou
fugindo por estes montes e riachos
escondendo-se da polícia
para criar uma família
a sua família
Impressiona a história
pela história
antigamente era-se assim inteiro
agora somos pedaços
retalhos da sociedade
segmentos de mercado
O som dos passos na terra
anuncia que chegou a hora
as últimas despedidas
os gritos que cortam a manhã
Nunca se está verdadeiramente preparado
para se dizer adeus
para deixar ir
Por muito que saibamos que vai ser assim
Por muito que nos mentalizemos
Por muito que tenhamos dito e feito
Não é suficiente
Nunca é
Fica sempre qualquer coisa
por dizer, por fazer
Mesmo quando a vida é longa
Da terra viemos
à terra voltamos
Do nada para o nada
E nos entretantos
é o que deixamos que nos segura aqui
são as memórias
que nos mantêm vivas
mesmo quando morremos
O som da terra a bater no caixão
Impossível não sentirmos
o quanto somos pequenos
o quanto somos efémeros
Quem parte faz-nos sempre falta
Mesmo que em vida não o parecesse
Porque quem parte leva um pedaço de nós
a nossa história
a história de quem nos criou
de quem nos fez gente
de quem nos ensinou a sonhar...

quarta-feira, março 17, 2010

na porta do deserto

encontrei uma tempestade de areia... e perdi-me
acusam-me de ter fugido
de ter abandonado quem ficou à porta
mas não se aperceberam
que levada pela tempestade me perdi
e desde aí tenho tentado encontrar o caminho
caminho incessantemente
na esperança de encontrar onde estava
de encontrar alguém que me diga onde me encontro
o vento na areia teima em apagar os caminhos
sinto-me às voltas
e sem sair do mesmo sitio
teimosa insisto
e volto a caminhar
e por momentos penso que estou a chegar lá
e logo o vento levantado pelas palavras
pelos actos me tapa a vista
a areia nos olhos faz-me chorar
paro e rodo sobre mim
enrolo-me sobre mim mesma e espero que passe
às vezes passa rápido
às vezes são tempestades em cima de tempestades
e eu aqui com o vento como companhia
se o deserto tem que se passar acompanhado
onde está a minha companhia
onde andam os amigos
quem deveria estar aqui
eu perdi-me mas não fui a única
outros houve que ficaram à porta do deserto
e que foram recolhidos
e agora seguem juntos
eu sei que hei-de conseguir sair do deserto
um dia encontrarei a saida
resta saber se estarei igual
se serei eu