sábado, janeiro 30, 2010

Antes que o dia termine

Antes que o dia termine
recordamos um outro dia
recordamos sons, imagens de festas
e felicidade
Antes que o dia termine
limpamos as lágrimas
cantamos e dançamos
ainda te lembras
"além do infinito eu vou voar"
"e voando bem alto me abraça no espaço de um instante"
Antes que o dia termine
e que já não dê mais
grita-se o que se sente
olhamos o relogio
as horas que teimam em voar
a vida que recusa parar
e o que temos
são momentos colados, instantes preenchidos de nada
porque é mesmo assim
porque não existe nada
no que já foi tudo
Antes que o dia termine
tanta coisa por dizer, por fazer
Outros dias terminaram
Outros começaram
e nós por aqui
Antes que o dia termine
gostava de sentir
de sorrir
de ser leve
por uns breves momentos
só para não esquecer
de como é bom
ou simplesmente
de como é ser...

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Hoje e um dia

Temos por hábito
adiar os sonhos
levantamo-nos de manhã
e dizemos um dia vou...
um dia faço... um dia digo...
Nos momentos em que nos
sentimos em baixo
Juramos que um dia
Quando a ansiedade
corre pelas nossas veias pensamos
um dia...
Sempre um dia
algo indefinido
sem data marcada
incerto e duvidoso
tal como a nossa vontade
de fazer acontecer
E depois esse dia
não definido passa
deixa de fazer sentido
e perdemos a oportunidade
Ficamos vazios por termos
ficado parados
à espera
Um dia digo-te que gosto de ti
Porque não to digo hoje
que estás aqui a meu lado
Um dia pode ser muito tempo
uma eternidade
Pode nunca chegar
Um dia faço 300kms
para estar contigo
Porque não conduzo hoje
e te faço uma surpresa
Um dia levo-te a dançar
Porque não dançamos aqui e agora
mesmo que no silêncio
Pois...
Eu não quero ter muitos dias desses
Eu quero o hoje, o aqui e agora
Se me lembro hoje
se me apetece agora
Então vou fazer acontecer
Não quero mais
oportunidades perdidas
sonhos esquecidos
surpresas desfeitas
Hoje levantei-me e disse
Hoje vou ser feliz
vou trazer um sorriso ao rosto de uma criança
vou correr o País atrás do Sol
E hoje tentei parecer feliz
Fiz sorrir uma criança
e guardei este pôr do sol único
para me lembrar
que basta querermos
para fazer
o mundo girar
e a vida acontecer

@17/01

ps- mesmo que tenha andado 200kms para ver Sol
ps1 - mesmo que não tenha conseguido ser feliz, pelo menos tentei e sorri muito


sexta-feira, janeiro 15, 2010

No frio da noite

Respiro fundo
o frio da noite
o meu corpo estremece
e uma amiga pergunta-me
se estou com frio
eu sorrio
e digo que isto passa
olho as estrelas no céu
e imagino que um dia
o frio passará
um dia deixarei
de ter a alma gelada
e o coração fechado
um dia conseguirei
estar novamente com os amigos
e rir-me
brincar com eles
agora simplesmente
não consigo
evito ao máximo estar
com amigos e família
porque sei que as pessoas vão sentir
a minha frieza
o meu desapego
caminho muito ao frio
para sentir o frio na cara
para me sentir viva
limito-me a ver o tempo passar
na esperança de encontrar o esquecimento
e o perdão
na esperança de que o tempo
leve a mágoa e a tristeza
e que deixe de sobreviver
que volte a viver
que volte a reencontrar-me
como podemos explicar a um amigo
que não adianta
que nem todo o calor do mundo
nos consegue aquecer
como conseguimos explicar
que passamos o dia numa profunda tristeza
onde as lágrimas correm recorrentemente
No frio da noite
é onde me sinto melhor
porque o frio desculpa o silencio
e a noite esconde as lágrimas



Nómada

Espírito nómada
e lá vou eu mais uma vez
à procura de um lugar
do meu lugar
perdi-me
e perdi o norte
arrasto-me pelos dias
impaciente
não me sinto em lado nenhum
na verdade a maior parte do tempo
não me sinto
não me conheço
preciso de sol
de luz
caminho à chuva
na esperança de encontrar um lugar seco
analiso mapas
crio hipóteses
já nada resta
a não ser inventar de novo
criar um caminho
para chegar a algum lugar
ao meu lugar

quarta-feira, dezembro 30, 2009

A capacidade de escolher

Temos a capacidade de escolher
quase tudo na vida
Escolhemos o que vestir
o que comer
o que ler ou ver
Escolhemos os amigos
ou somos escolhidos
Escolhemos a profissão
mesmo que preferíssemos outra
Escolhemos onde queremos morar
Temos escolhas inconscientes
e pouco importantes
E temos as grandes escolhas
Quando queremos mudar
seja o que for
custa sempre
o ser humano é um animal
de hábitos, de raízes e tradições
Escolher mudar por muito
que nos entusiasme
por muito que queiramos
acaba sempre por nos sair da pele
mesmo que nos passe ao lado
Mas quando temos que escolher
escolher mesmo
Arriscar e mudar algo
Analisamos, pensamos e observamos
Pedimos opinião
Deitamos as cartas
na esperança que alguém
algures no tempo e no espaço
ou mesmo algo
nos diga que vale a pena mudar
Que vale a pena mexer no destino
e mudar a sorte
Que seremos felizes
qualquer que seja a escolha
E aqui não concordo
Quando temos que optar pela pessoa que gostamos
ou pela profissão que nos dá energia e vida
o que fazer?
Se não se pode ter as duas
como se escolhe?
Como se pede a alguém que escolha apenas
uma metade de si e abdique da outra?
Que recomece do zero?
Desculpem os idealistas pensantes
mas nesta altura preferia não ter de decidir
Preferia que alguém me levasse pela mão
e decidisse por mim
Existem decisões
em que ninguém ganha
todos perdem
Uns perdem uma parte de si
Os outros perdem-nos
Se se decide ficar
não se esquece do que se abriu mão
e cria-se um mundo de "ses"
No fundo um vazio de tristeza por não ser...
Se se decide partir perde-se uma parte de nós
porque fica para trás
o teu cheiro, o som da tua voz,
os teus olhos onde me perco
Nunca se ganha
qualquer que seja a escolha

@ 29/12

Certezas e direitos

Depois de termos certezas
Esse estado de espírito
por vezes raro
Em que um dia paramos e dizemos
É isto que eu quero
nem mais nem menos
só isto e disto
tenho a certeza

@16/12

I will try to fix you

Como curamos quem sangra por dentro
Como saramos aqueles que só conhecem a dor
Podemos tentar
Podemos dar
Dar muito
Dar tudo o que temos
mas provavelmente nunca conseguimos
transformar uma alma triste em alegre
Carregamos o silêncio
a melancolia
De quem já viu o futuro
E sabe que por muito que lhe digam
por muito que lhe prometam
os seus sonhos terão sempre de ser ajustados
a algo, a alguém
ao mundo que os rodeia
Conseguiremos nós fazer pelos outros
aquilo que não por nós
Teremos o direito de "curar" os outros
quando nos fechamos
quando nos isolamos
do mundo
e dizemos não
Não quero
Deixem-me estar aqui
na minha tristeza
na minha melancolia
no meu mundo distante...

@19/12

quarta-feira, novembro 04, 2009

Uma eterna questão

Saio para um final de tarde já escuro
Seis horas e a noite já caiu na cidade
Caminho em passos lentos e arrastados
com a minha tristeza
De repente o cheiro a castanhas assadas
faz-me sorrir
Como posso ficar triste
com esta brisa fresca no rosto
anunciando o Inverno
um cheiro a castanhas no ar
e as primeiras decorações de Natal
nas montras
Que direito tenho
de ficar triste
de chorar
quando tenho tudo isto à minha mão
e outros não
Vou caminhando pela rua e faço-me sorrir
Depois olho o telemóvel vazio
sem mensagens nem chamadas
e os olhos ficam brilham com as lágrimas
a querer cair
e lembro-me da minha tristeza
da eterna questão
de dar e receber

A propósito de dar

Dar continua a ser um problema real
no mundo em que vivemos
Damos demais
Damos de menos
mas parecemos nunca acertar
no que dar, quando dar e a quem dar
Eu pessoalmente gosto de dar quando me apetece
não gosto de ser obrigada
não gosto de sentir no rosto dos outros
que esperam algo que não tenho em mim
deve ser por isso que me chamam fria
eu chamo-lhe experiência
desde sempre que sei
que ninguém dá muito
ou para sempre
porque somos humanos
porque a falha e o lapso
estão inerentes a esta nossa condição
Também me custa receber muito
sinto-me sufocar
sinto-me em permanente dívida
e estupidamente habituo-me
acontece é que depois
os outros não correspondem
e eu fico triste
e com raiva
porque não pedi
porque não queria ter
mas habituei-me
e depois nada
o vazio no lugar de algo
porque as pessoas são esquizofrénicas
são duas pessoas dentro de uma
ora nos sufocam
ora nos desprezam
ao menos
dou pouco
mas dou
sempre igual
sempre o mesmo
para ninguém se sentir abandonado
nem triste
é talvez das poucas coisas
onde sou sensata e equilibrada
e teria paz
não fossem outros

quarta-feira, outubro 21, 2009

Um dia

Um dia gostava de ser verdadeiramente surpreendida por alguém
de não conseguir adivinhar o que se passará a seguir
de não ter certezas de que a minha acção provocará aquela reacção
gostava simplesmente de não saber
do imprevisto de lidar com alguém que é diferente
que não respeita o jogo que lhe ensinaram desde pequeno
Um dia gostava de poder falar livremente sem o medo
de condicionar, de moldar, de determinar
os instantes seguintes
Um dia gostava que se antecipassem a mim
soubessem de mim antes de mim
Me fizessem sorrir inconsequentemente
e quando me magoassem que o fizessem
porque foram simplesmente humanos
e não pessoas
Um dia gostava de não ter de pedir
nem falar nem escrever
bastaria olhar
Um dia os meus pensamentos seriam secundários
perante tanta antecipação
e nesse dia eu sorriria
aquele sorriso guardado há muito
uma gargalhada no ar ecoaria
e seria feliz
mas esse dia tarda em aparecer
por isso fico por aqui
quieta, a olhar o mundo
e a pensar
como são previsíveis as pessoas.

Calei

Calei e logo os seres pedantes subiram os degraus que os fazem superiores e começaram a gritar...

Olho-os e penso ainda bem que deixei de falar

Porque o silêncio traz-nos de volta a nós

e eles continuam ali no palco sem perceberemque nunca serão unos... Viver cansa mas não abdicaria um único dia

de viver a minha vida com sangue, suor e lágrimas

mas é minha

é tua

é aquela que sentimos nossa só nossa

cansei do mundo

espero que o mundo se canse de mim

e me deixe aqui...um dia se me apetecer talvez volte

@ 14/10

terça-feira, setembro 22, 2009

Mitos Urbanos

Ultimamente tem sido um desmistificar de mitos urbanos
começa a parecer-me cómico
Ao cair do primeiro
ficamos sinceramente triste
e a pensar que fomos enganados
Ao cair do segundo
começamos a questionar
se somos nós que sonhamos demais
ou as pessoas que fantasiam a realidade
Sim é verdade que os gostos não são todos iguais
mas se muita gente o diz então deve ser verdade
pensamos nós ingénuos e incautos
Mas quando cai o terceiro mito
não resistimos a fazer aquele sorriso matreiro
de "apanhei-te"
e deixamos de acreditar
em muitos dos mitos urbanos que nos povoam o universo
A menos que sejam criados por nós
Para os mais curiosos
o primeiro a cair foi Tavira
Ah essa bela localidade
linda, magnífica, etc e tal
Pois aos meus olhos
revelou-se normal, banal
reduzida a uma cidade com o seu rio e as suas pontes
e com o mimo do rio mudar de nome a meio
só porque sim
porque é mais giro
Lamento mas quem diz a verdade não merece castigo
e que eu saiba ainda temos direito
às nossas opiniões
Salvou-se a rua da casa das portas
rua essa pitoresca
invulgar com a sua luz, animação e boa comida
Por uns momentos convencemo-nos
que não estamos em Portugal
e muito menos no Algarve
Mito Nº2
Pego do Inferno
Esse local paradisíaco
uma queda de água
no meio do nada
com uma pequena lagoa onde se pode nadar
Bem a queda de água está lá
a lagoa apesar da água
castanha e com espuma também
o meio do nada é que pode ser relativo
Já que desde um café/bar
no inícioe até à lagoa
existem umas escadas
com muitas indicações
e também muitos graffitis
tornando toda a envolvente natural suja
roubando-lhe o que tinha de melhor
E passamos ao mito nº 3
Este sim
digo-vos que já o esperava
só não aprende quem não quer
Os Bifes do Café de S. Bento
os famosos, os únicos de que todos falam
e que segundo as revistas
são dos melhores bifes de Lisboa
Bem está tudo lá
o ambiente íntimo e acolhedor
o bife em sangue como se exige
uma textura magnífica
um molho alvo
ficamos a olhar como crianças
para uma guloseima
o problema é quando se prova
o dito bife não sabe a muito
para não dizer a nada
e o molho revela-se ínsipido
Acabando por não fazer muita diferença
ter ou não ter molho
Convenhamos que dar 20€ por um simples bife
faz com que esperemos no mínimo
algo que nos saiba, que tenho sal ou açúcar ou qualquer outro condimento
mas que saiba
Contudo, e para que não digam que sou radical
e corto a direito
Conto lá voltar um dia destes
Dando uma segunda oportunidade
aos ditos bifes
Se dou tantas oportunidades
a quem não vale muito
Porque não dar
"aos melhores bifes de Lisboa"?

sábado, setembro 19, 2009

A história

A história faz-se de pequenas
histórias entrelaçadas
O tempo constrói-se
de inícios, fins e alguns recomeços
Quando sentimos que não dá mais
encerramos um capítulo
fechamos o livro
colocamos de lado aquela história
Esquecemos que aquela
também somos nós
ou pelo menos
aquilo que fomos um dia
Ao guardar essa memórias
cuidamos para não nos guardarmos
a nós
por mais apetecível que seja
a possibilidade de sairmos de nós
e ficarmos arrumados numa prateleira
a ver
a observar os outros e o mundo
e nós com o pó por companhia
sem sentir
sem querer

@13/09

Do outro lado do espelho

Do outro lado do espelho
observando relógios de sol
as sombras indicando
os minutos, as horas
Caminho
Penso
Sinto
Deste lado do espelho
a realidade não é cor-de-rosa
e o mundo não se divide
em preto e branco
Pelo contrário
cada vez tem mais cinzentos
Do outro lado do espelho
espero um abraço
um sorriso
de mim para mim
Do outro lado do espelho
tudo parece tão mais frágil
como um castelo de vidro
os relógios de sol
dizem-me que a noite
não tarda a chegar
e as luzes começam a iluminar-me
desta lado do espelho
e a mostrar um rosto cansado
do outro lado do espelho
já nada vejo
nada sinto...

@03/09

segunda-feira, agosto 31, 2009

Lisboa à Noite

A Lisboa dos monumentos iluminados
A Lisboa dos bairros enfeitados
Luzinhas mil espalhadas pelas suas colinas
Esta Lisboa que amo
e que me embala no seu regaço
que me pisca o olho
catraia rabina
que me sorri como uma mãe
As esplanadas, os cafés
o convívio boémio
de uma velha senhora aristocrata
Da Sé a Belém
Majestosa
Começo a conhecer-lhe as ruas
os sons
os cheiros que se vão tornando familiares
a cada dia que passa
E uma noite quente
que traz o sossego
o sussurro da lua
brilhante e distante lá no alto
Este sobe e desce do eléctrico
percorrendo a cidade
pela noite
Imagem irrepetível
momentos inesquecíveis
nesta cidade que amo...

@ 29/08

A Lisboa que vive

O pulsar desta cidade
nas esquinas
nos becos esquecidos
que lhe transmitem vida
que mostram a realidade
de um povo que não esqueceu
Simplesmente conformou-se
Aceitou o seu fado
E aguarda a paisagem
dos dias
dos meses e dos anos
com uma calma
uma displicência
que outrora não possuía
onde estão os genes
que nos levaram
"por mares nunca dantes navegados"
Onde está a paixão
que nos moveu por aí abaixo
para conquistar terra
construímos cidades
descobrimos caminhos
E depois conformámo-nos
Deixámos ir
o que de melhor tínhamos
resta-nos esta cidade
que ignoramos ou desprezamos
mas que revela
o que fomos
e onde chegámos
mesmo que seja passado
o verbo que se utiliza
se perdemos os genes
ao menos guardemos a memória
e a história daqueles que desafiaram
os limites
o desconhecido
e contruíram aquilo
que damos por adquirido

@29/08

quinta-feira, agosto 27, 2009

As mentiras que embalam os nossos dias

É verdade
é imperativo que se admita
que o ser humano mente
subtilmente ou descaradamente
mas mente
mente-se por tudo
e mais qualquer coisa
mentimos para não magoar
mentimos para proteger
mentimos para enganar
sempre por coisas ou pessoas
mas o que dizer daqueles
que mentem para nada
por nada
daquelas mentiras tão vazias
tão insípidas
que não têm razão de existir
que a resposta honesta à nossa pergunta
também teria caído bem
sem fantasias
sem meias verdades
sem ilusões
para quê mentir assim
não vale a pena
principalmente quando conhecemos a pessoa
e sabemos que não está a ser verdadeira
damos uma nova hipótese
e a pessoa insiste na mentira
e começamos a questionar
o que leva essa pessoa a ser assim
a questionar tudo o que ela diz
e o que faz
e a pessoa perde a face
para nós
mesmo que conte a verdade
já não é a mesma coisa
perde-se a credibilidade
a fiabilidade
e tudo por fios vazios de história
desprovidos de importância
e que ficariam assim para sempre
não fosse a mentira
e as mentiras começam a incomodar
começamos a perguntar
só para saber até onde vai a mentira
e a pessoa vai contando
mais histórias mas não a verdade
e chega a um ponto
em que deixamos de ligar ao que a pessoa diz
ou que deixamos de ligar à pessoa
e será que valeu a pena
é que existem mentiras
pelas quais vale a pena
morrer
outras nem por isso
são inócuas
e só ganham relevância
quando começam a ser recorrentes
e aborrecidas

e não vale a pena

disfarçar porque te conheço melhor do que julgas

e sei distinguir quando hesitas e começas a mentir

segunda-feira, agosto 17, 2009

Miradouro da Graça

Neste final de tarde
com um sol calmo a descer sobre a cidade
Agarro-me a esta imagem
respiro fundo
quando a brisa toca o meu rosto
e retenho ao máximo o que posso
deste momento
como se quisesse entrar dentro dele
e aí permanecer
fora do tempo e do mundo
imóvel
imutável
indolor
Milhares de turistas de máquinas na mão
lembram-me que por vezes também sou
turista dentro de mim mesma
viajo no meu interior
tiro umas fotos e saio o mais rápido possível
Existem imagens de mim
que prefiro ignorar
não ver para não ter que lidar com
Cada vez mais regresso à minha infância
nesta cidade para onde voltei
sinto-me uma estranha aqui
mas também é verdade
que agora me sinto estranha em qualquer lugar
muito tempo no mesmo sítio
e sinto-me sufocar
Misturo-me no meio da multidão
para desaparecer
para não ter que me lembrar quem sou
e donde venho
e que tenho de ir para algum lado
todos nós temos que ir para algum lado
o problema é quando não sabemos
para onde queremos ir:
ou não vamos
ou vamos mal
e existem decisões na vida
que não são irreversíveis
mas também não são reversíveis
sempre arrisquei em ir
paguei para ver
tento sempre não me arrepender
e retirar algo de bom de tudo
o que acontece
mas agora não consigo
porque se calhar nada de bom
vai acontecer desta situação
não existe nenhum win-win escondido
só loose-loose

@16/08

domingo, agosto 16, 2009

Cata-ventos II

Continuo fascinada com os cata-ventos
sinto-me como eles
Se me pagassem agora pela mão
eu iria até ao fim do mundo
sem perguntar
sem questionar
Continuo vegetal
o olhar parado no horizonte
e no rádio a música do Rui Veloso
"eu nunca me esqueci de ti
não nunca me esqueci de ti"

@14/08

@ 13/08

Contemplo a planície
Essa paisagem sem fim
que se avista aqui do cimo da vila
o silencio ecoa na minha cabeça
finalmente silencio
finalmente um pouco de paz
aqui e ali soam as vozes
de turistas que se atrevem a caminhar
debaixo deste sol impiedoso
queres explicações
queres perceber os porquês
Mas sabes,
existem alturas na vida onde não
existem porquês
onde a vida simplesmente discorre
por ela própria sem explicar
o que nos trouxe aqui
até esta encruzilhada
sabemos de onde viemos
Mas neste momento
procuro para onde quero ir
certezas são tão difíceis de encontrar
por estes dias
Aqui o tempo tem a sua própria forma de passar
Aqui o sol arde mais forte
queima mais a pele
deixa marcas profundas
No meio do nada
um sobreiro resiste sozinho
cresce isolado de tudo e de todos
e para mim
é essa a imagem mais marcante
deste Alentejo profundo
onde me sinto em paz
onde estou em casa