Perguntam-me porque tiro tantos auto-retratos
Riem-se com a minha suposta vaidade
E eu encolho os ombros e sorrio
Se eles soubessem
Se por um instante suspeitassem da verdade
ficariam em pânico
Como se diz aos nossos anjos que nos estamos a perder
Como se explica a quem gosta de nós
que fazemos auto-retratos para não nos esquecermos
de quem somos
de quem fomos um dia
Não é fácil
Sei que caminho por uma linha ténue entre a lucidez e a confusão
Sei que por vezes me esqueço de quem sou
e onde estou
Vejo-me ao espelho e não sei de quem é esse rosto
que me olha de volta
Sou eu, e mais alguém dentro de mim
Eu não me quero esquecer de mim
E para isso preciso perpetuar momentos
Guardar recordações e memórias
sob a forma de retratos
Para me segurar a esse fio
cada vez mais fino que me mantem
deixem-me ficar com o que posso
antes que tudo se acabe
antes que se vão de mim
os sons, as cores, os gostos
tão meus
a minha vontade
Se vos contasse o pânico e a dor
que por vezes carrego
Achar-me-iam louca?
Se vos dissesse que me esqueço
de ser e de viver
Deixariam de me falar?
Não tenho o direito de vos fazer ficar
por isso deixem-me tirar retratos
deixem-me guardar imagens, memórias
Do que fiz
Do que vivi
Do que sou
e um dia do que fui
@12 Nov 08
domingo, novembro 30, 2008
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